Dia Internacional dos Monumentos e Sítios | 18 de abril

2020-04-17

O tema escolhido para as comemorações do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios deste ano, que se comemora a 18 de abril, foi o Património Partilhado, com autoria conjunta da IP Património, empresa do Grupo IP, e da CP, Comboios de Portugal, tendo contado com a colaboração do Projeto Andarilho. Decorre em circunstâncias diferentes das habituais, desta vez sem visitas guiadas in loco mas com a disponibilização de um conjunto de informação digital, que inclui imagens e vídeo, sobre a Estação de Vilar Formoso e do Museu Vilar Formoso Fronteira da Paz - Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes. 

Património partilhado

Culturas partilhadas | Património partilhado | Responsabilidade partilhada

O caso da Estação de Vilar Formoso e do Museu Vilar Formoso Fronteira da Paz - Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes.

A Estação de Vilar Formoso

 

Ao longo do século XIX definiram-se os eixos principais da nossa ferrovia e a maior intensidade de construção concentrou-se entre 1854 e 1891. A década de oitenta culmina com a construção das linhas da Beira Baixa, Oeste, Ramal de Sintra, Ramal de Cascais, a inauguração da nova estação central do Rossio e a Linha da Beira Alta, esta pela segunda maior empresa ferroviária então a operar em Portugal, a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses da Beira Alta.

A construção da rede ferroviária nacional pautou-se, num primeiro momento, pela vontade de ligar a capital a Espanha e à Europa: pensava-se em Lisboa como o Cais da Europa, tendo a linha chegado à fronteira de Vilar Formoso a 3 de agosto de 1882. A estação foi inaugurada pela família real – o Rei D. Luis, a Rainha D. Amélia e o Príncipe D. Carlos.

Segundo o conceito tradicional, uma estação é o conjunto das construções existentes no recinto compreendido entre as agulhas de entrada e de saída de comboios. Encontramos na Estação de Vilar Formoso, com perto de 600 metros de comprimento, um extenso património histórico e cultural que data das três épocas de exploração da rede ferroviária nacional - vapor, diesel e elétrica. 

Nesta paisagem específica do caminho-de-ferro destacamos os seguintes elementos:

  • O edifício de passageiros
  • O edifício das instalações sanitárias
  • O depósito de água com a toma de água incorporada
  • Dois cais cobertos, antigos armazéns para guarda de mercadorias com acesso ferroviário e rodoviário, servidos por um guindaste e aliados a dois cais descobertos, isto é, duas grandes plataformas sobrelevadas, que facilitavam as operações de cargas e descargas.

Completa a paisagem, no exterior, o Largo da Estação, no qual se encontra, e do lado oposto ao edifício de passageiros, a antiga Alfândega.

O edifício de passageiros, de dois pisos e planta retangular longilínea, desenvolve-se ao longo de 60 metros de comprimento. Aqui se situam as bilheteiras, a sala de espera e espaços dedicados ao pessoal ferroviário. De referir alguns elementos arquitetónicos como a cobertura e beirados em telha vermelha, a colunata em pedra que sustenta o alpendre virado às linhas e os painéis de azulejos que animam todos os lambris deste edifício e o das instalações sanitárias. 

São cinquenta painéis da autoria do pintor aguarelista João Alves de Sá (1878–1972), autor também dos painéis das estações de Rio Tinto e Estremoz. Foram produzidos na Fábrica de Cerâmica da Viúva Lamego e colocados nos finais da década de 1930, na sequência da grande intervenção de que o edifício foi alvo. Retratam paisagens e monumentos nacionais, principalmente dos localizados ao longo da Linha da Beira Alta, em composições de branco, azul e amarelo.

Os azulejos, além dos painéis figurativos, enriquecem as vergas curvas das janelas e portas com elementos inspirados nos estilos barroco e rococó, numa solução aliás caraterística do período barroco.

Na fachada principal aparece a identificação da Estação - Vilar Formoso, a azul sobre fundo branco, numa cartela alongada, também formada por motivos do barroco e rococó, a azul e amarelo e que é encimada pelo “Escudo da Nação”.

Um outro painel de grandes dimensões, o painel “PORTUGAL”, isolado no meio das linhas de entrada na estação, saúda quem vem de Espanha.

Através do Protocolo de Cooperação entre a ex-REFER e a Escola de Polícia Judiciária-Museu de Polícia Judiciária, a Infraestruturas de Portugal colocou a “Placa SOS Azulejo”, dissuasora de roubo e vandalismo de azulejos.

De seguida apresentamos um conjunto de imagens ilustrativas:

 

Estação Ferroviária de Vilar Formoso, s/data | Arquivo Projeto Andarilho

 

Estação Ferroviária de Vilar Formoso, s/data | Arquivo Histórico CP - Comboios de Portugal.

Fronteira de Vilar Formoso. Alterações ao Projeto de Reparações do Edifício da Alfândega.
Autoria do Arq. Paulo de Carvalho Cunha. 25 de janeiro de 1940.
Arquivo Técnico Infraestruturas de Portugal.

 

 

Diagrama de linhas (mapa da estação) da Estação Ferroviária de Vilar Formoso datado de 1992. Arquivo Técnico Infraestruturas de Portugal.

Museu Vilar Formoso Fronteira da Paz - Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes

 

A história dos caminhos-de-ferro é também a história social e política dos territórios e das nações.

A Linha da Beira Alta assumiu-se desde sempre como a linha verdadeiramente internacional, do Sud Express, dos emigrantes e dos que procuraram refúgio.

Durante a II Guerra, a Península Ibérica acabou por escapar ao seu impacto inicial, mas e à medida que as nações europeias caíam face ao poder militar alemão, os judeus europeus foram empurrados para a fronteira franco-espanhola. Milhares de indivíduos tentaram obter o visto para entrada em Espanha e Portugal a fim de alcançarem um refúgio e a possibilidade de embarque para a América.

Um bom exemplo de Património Partilhado e de preservação e valorização do nosso património histórico e cultural ferroviário é o da ocupação dos referidos cais cobertos da Estação Ferroviária de Vilar Formoso pelo Museu Vilar Formoso Fronteira da Paz - Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes.