Abertura do Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes

2017-09-01
Foi inaugurado no dia 26 de agosto o Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes, em Vilar Formoso, um espaço museológico que ocupa dois antigos armazéns ferroviários.
 
A cerimónia foi presidida pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e teve a presença de inúmeras individualidades, nomeadamente, o Presidente da Câmara Municipal de Almeida, António Baptista Ribeiro, o vogal da IP Património, José Carlos Osório, e diversas famílias judias de refugiados que encontraram asilo em Portugal depois da fuga às perseguições nazis, durante a Segunda Guerra Mundial.
 
"É um museu que é uma chamada de atenção constante para que não nos esqueçamos, não nos resignemos, não nos demitamos da nossa luta por valores fundamentais da pessoa humana. Foi com Aristides de Sousa Mendes. Tem de ser com muitos, muitos mais hoje e no futuro. É a lição deste museu ", afirmou o Presidente da República que lembrou ainda os atentados contra vidas e contra os direitos das pessoas, alertando que "há o risco de consideramos isso habitual, de considerarmos normal o desrespeito da dignidade das pessoas, de banalizarmos esse horror".
 
"Há o risco de ficarmos insensíveis, ou seja, desumanos. E não podemos ficar desumanos. A nossa luta deve ser pelos direitos das pessoas de carne e osso, (…) pela paz e pela concórdia e pela aceitação do outro. (…) não nos podemos esquecer, não nos vamos esquecer", concluiu Marcelo Rebelo de Sousa no seu discurso que foi escutado, entre outros, por antigos refugiados e seus familiares e familiares de Aristides de Sousa Mendes.
 
Por sua vez, o autarca de Almeida, António Baptista Ribeiro, espera que o novo equipamento cultural "possa servir de exemplo àqueles que o visitam" e que "seja catalisador de um desenvolvimento sustentável" para Vilar Formoso.
 
 

Um lugar de muitas estórias

Constituído por seis núcleos e com um investimento de cerca de 1,2 milhões de euros, o projeto do novo museu foi uma iniciativa da Câmara Municipal de Almeida e integra a Rede de Judiarias de Portugal.

Ocupa dois antigos armazéns ferroviários, com uma área de cerca de 500m2, alvo de um contrato de subconcessão entre a IP Património e a edilidade, localizando-se na Estação de Vilar Formoso, definindo o limite Sul/Sudoeste do Largo da Estação.
 
De assinalar a excelente recuperação do Cais Coberto, que manteve a originalidade do edifício e o cuidado estético revelado em todo o memorial e na reabilitação do espaço envolvente.
 
Nos dois antigos armazéns, unidos como que por um túnel retorcido, foram instalados seis núcleos expositivos sobre os temas "Gente como Nós", "O Início do Pesadelo", "A Viagem", "Vilar Formoso – Fronteira da Paz", "Por Terras de Portugal" e "A Partida", que narram as vivências de milhares de pessoas desde a década de 1930 à fuga às tropas nazis e ao seu calvário para obtenção de vistos, à sua chegada a Vilar Formoso de comboio ou de automóvel ao seu refúgio em Portugal e, por fim, à partida de muitos para outras paragens, em especial no Novo Mundo.
 
A historiadora Margarida Magalhães Ramalho foi responsável pela pesquisa sobre os refugiados e coordenação de todos os conteúdos do memorial, sendo o projeto de arquitetura do polo museológico da arquiteta Luísa Pacheco Marques.
 
Entre 17 e 19 de junho de 1940, Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, assinou 30 mil vistos para salvar pessoas dos campos de concentração e do holocausto nazi, contrariando as ordens do Governo de Salazar, situação que o levaria à expulsão da carreira diplomática. Muitos desses refugiados vindos de França e de outros países europeus invadidos pela tropas alemãs entraram em Portugal pela fronteira de Vilar Formoso, cuja população acolheu e partilhou a pouca comida que tinha com os milhares de refugiados, nos seus primeiros dias em Portugal.
 
O novo museu expõe cartas, fotografias, filmes e outros documentos da época, testemunhos de pessoas que passaram por Vilar Formoso e depoimentos gravados com refugiados ainda vivos ou com as suas famílias.
 
 
O novo museu expõe cartas, fotografias, filmes e outros documentos da época, testemunhos de pessoas que passaram por Vilar Formoso e depoimentos gravados com refugiados ainda vivos ou com as suas famílias.